O Brasil guarda uma riqueza subaquática pouco explorada fora dos círculos de mergulhadores. Com mais de sete mil quilômetros de costa, arquipélagos protegidos e naufrágios históricos, o país oferece experiências que rivalizam com destinos internacionais — desde recifes tropicais cheios de vida até paredões rochosos em águas mais frias do sul.
Como instrutor em Florianópolis, já acompanhei centenas de mergulhadores em diferentes regiões. Uma pergunta sempre aparece: preciso mesmo de wetsuit? A resposta depende do local, da profundidade e da estação. Este roteiro editorial reúne os pontos que considero essenciais para quem quer conhecer o fundo do mar brasileiro com conforto e segurança.
Fernando de Noronha: o cartão-postal subaquático
Noronha concentra visibilidade excepcional, tartarugas, golfinhos-rotadores e cardumes generosos. A temperatura da água oscila entre 26 °C e 28 °C na maior parte do ano, o que significa que muitos mergulhadores entram apenas com rash guard. Porém, em sessões de duas horas ou mais — especialmente na Caverna da Sapata ou em mergulhos a profundidades acima de vinte metros — um shorty de 1,5 mm ou 2 mm oferece conforto extra sem restringir movimentos.
A Ilha Rata e a Ilha do Meio são paradas obrigatórias. Lembre-se de que Noronha é parque nacional com regras rígidas: mergulhe sempre com operadoras credenciadas e respeite os limites de visitação.
Arquipélago de Abrolhos: biodiversidade em estado puro
Abrolhos, na costa sul da Bahia, é um santuário marinho com recifes de corais, baleias jubarte (entre julho e novembro) e uma densidade de vida marinha difícil de encontrar em outro lugar do Atlântico Sul. A água aqui é mais fresca do que no restante do nordeste — entre 22 °C e 25 °C — e a maioria dos mergulhadores usa 3 mm durante boa parte do ano.
As paredes rochosas da região exigem tempo prolongado submerso para serem apreciadas. Um wetsuit bem ajustado faz diferença entre encerrar o mergulho satisfeito ou com hipotermia leve. Abrolhos exige planejamento: o acesso é limitado e as saídas dependem de condições climáticas favoráveis.
Florianópolis e arredores: frio que surpreende
Quem pensa em Santa Catarina como destino apenas de veraneio subestima o potencial subaquático da região. A Ilha do Arvoredo, reserva biológica marinha, oferece mergulhos em águas que podem chegar a 16 °C no inverno. Aqui, um 5 mm com capuz não é exagero — é equipamento padrão entre os locais entre maio e setembro.
Além de Arvoredo, a Ilha do Campeche e os naufrágios ao redor de Florianópolis atraem mergulhadores de todo o país. A Praia da Galheta, acessível por trilha, combina paisagem preservada com fundos rochosos interessantes para snorkel e mergulho raso.
Em Floripa, o wetsuit não é acessório — é parte da identidade do mergulhador local. Quem subestima o frio da Corrente do Brasil aprende na prática.
Angra dos Reis e Ilha Grande: o litoral fluminense escondido
O arquipélago de Angra dos Reis reúne mais de trezentas ilhas com enseadas calmas e naufrágios acessíveis. A P047, em Ilha Grande, é um dos naufrágios artificiais mais visitados do Brasil — um navio patrulha afundado que virou recife artificial repleto de peixes e corais.
A água aqui varia entre 20 °C e 26 °C conforme a estação. No inverno, um 3/2 mm é recomendável; no verão, muitos mergulhadores se contentam com 2 mm ou apenas lycra. A vantagem de Angra é a combinação de mergulho técnico acessível com infraestrutura turística consolidada.
Porto de Galinhas e Maragogi: recifes de piscinas naturais
No litoral de Pernambuco e Alagoas, as piscinas naturais formadas pelos recifes de corais são ideais para snorkel e mergulho raso. A temperatura raramente cai abaixo de 25 °C, e o neoprene fino serve mais como proteção contra o sol e abrasões do que como isolamento térmico.
Maragogi, conhecida como "Galés", oferece formações de corais visíveis mesmo a poucos metros de profundidade. Para quem está começando, é um excelente ponto de entrada antes de encarar mergulhos mais exigentes no sul.
Dicas gerais para o roteiro
- Consulte operadoras locais sobre temperatura da água na semana da viagem — previsões genéricas não refletem variações regionais.
- Leve pelo menos dois modelos se pretende viajar entre regiões: um fino e um de espessura média.
- Respeite áreas de proteção ambiental e limites de profundidade conforme sua certificação.
- Priorize operadoras que oferecem equipamento adequado ao clima local, especialmente se você está alugando wetsuit.
O Brasil ainda tem muito a revelar aos mergulhadores. Cada região exige adaptação — e o wetsuit certo é parte dessa conversa entre corpo, equipamento e oceano. Escolha seu próximo destino com calma, prepare-se para a temperatura local e aproveite o que o litoral brasileiro tem de melhor debaixo d'água.
Atualizado em 5 de junho de 2025 — revisamos informações de acesso ao Arquipélago de Abrolhos para a temporada 2025.